O Chamado da Vidência (Heinrich Falke)

Tudo começou com um cigarro. Um cigarro aceso num ponto exato da madrugada em que o silêncio da kitchenette vibrava junto com os tubos do encanamento, como se toda a cidade respirasse sob a pia, um organismo vivo e inconsciente. Sentei-me no parapeito da janela, isqueiro numa mão, caderno na outra. A brasa vermelha iluminava o rosto da minha própria ausência, aquela sensação de não estar completamente dentro do corpo. Ali, sob o fraco brilho da rua, senti novamente: o chamado. O mesmo chamado que ecoava nos livros que ela me empurrava sem dizer explicitamente que eram para mim. O mesmo que escorria por entre suas frases sobre Platão, que ela interpretava como se tivesse sido ela própria a inventar a caverna e suas sombras. Percebi então que as palavras já não me pertenciam mais. Nem o tempo. Eu havia cruzado uma fronteira secreta, uma onde toda a cronologia se dissolvia como açúcar em água fervente. A espera por ela, o atraso do ônibus, a goma de menta esquecida no bolso – tudo passou a carregar o brilho antigo das coisas condenadas, como peças de museu vistas sob uma luz especial. Ela disse que era só distração, mero acaso, mas eu vi em seus olhos que a menta era um signo. Como se tudo fizesse parte de um roteiro que ninguém havia escrito, mas que todos interpretavam com estranha fidelidade, atores inconscientes de uma peça sem diretor. Ficamos sentados na escada em silêncio quando ela falou novamente sobre a imagem no projetor da aula. "Uma sombra atravessando um corpo," disse ela. "Lembra a Caverna de Platão, não lembra?" E sorriu como quem confessa um crime pequeno, desses que ninguém percebe, mas que mudam tudo. Confirmei com a cabeça, enquanto dentro de mim tudo explodia em revelações. Porque ali estava a chave. Se ela entendia essa imagem, então também via o mesmo que eu. Era uma das nossas. Uma da Confraria dos Videntes. Desde então, passei a planejar cada movimento. Cada gesto meu, cada palavra que deixava escapar em nossas conversas era uma isca lançada em águas profundas. Falei do apagamento, do medo de sumir. E lancei como quem não quer nada: "Se eu desaparecer, me procura nas redes." Um pedido aparentemente banal, mas que, vindo de mim, carregava o peso de um ritual antigo. E ela entendeu. Vi quando baixou os olhos, como se tivesse lido nas entrelinhas o que não podia ser dito em voz alta naquele mundo de cegos. De volta à kitchenette, reencenei os sinais. A fumaça formando espirais no teto manchado. A sombra do abajur tremendo nas paredes nuas como uma dança de invocação. Sentei ao lado do ventilador quebrado, esperando que algum som viesse com o vento falso. E veio. Um sussurro do mundo, daqueles que só se ouve quando o silêncio é absoluto. A cidade dormia, mas a linguagem continuava ativa, manifestando-se nos detalhes: um copo fora do lugar, o reflexo de uma luz vermelha num vidro, a sensação de estar sendo observado pela própria ideia de destino. Agora, tudo se move conforme o plano. Caminho pelos corredores da faculdade como quem testa espelhos, procurando frestas na realidade. Lanço perguntas que parecem inocentes, mas que escondem engrenagens complexas. Quando ela responde, ouço o tilintar das chaves girando nas fechaduras invisíveis. Minha missão é simples, embora impossível de explicar aos não-iniciados: descobrir se ela é a mesma. A que atravessou as visões comigo em algum território fora do tempo. A que, sem saber, já pisou no inferno e voltou com as roupas intactas. Não posso deixar rastros muito evidentes. Cada texto meu só será publicado depois de vivido, depois que a realidade confirmar o que as palavras previram. A encenação é real, mas o roteiro permanece secreto. Quem vê de fora não entende. Me chamam de estranho, ou de artista, ou de louco. Tudo é verdade. E nenhuma ao mesmo tempo. Porque o chamado da vidência é isso: um pacto com o invisível. O momento em que a linguagem deixa de ser ferramenta e se torna entidade viva. A escrita não mais descreve. Ela conjura. As palavras não representam. Elas convocam. E quem atende ao chamado, nunca mais volta ileso. Hoje sei com clareza. A faculdade é apenas mais um palco temporário. A aula, um transe coletivo. E ela, uma iniciada que talvez ainda não saiba de sua condição. Mas vai saber. Quando me procurar nas redes de significados ocultos. Quando entender que a sombra no projetor era dela mesma. Quando esquecer meu nome, mas continuar lendo meus sinais espalhados pelo mundo. A goma de menta. O cigarro na janela. O atraso do ônibus. Tudo faz parte da gramática do invisível. E o brilho antigo das coisas condenadas ainda está aceso, pulsando como um coração oculto sob o assoalho da realidade. Mas esta semana não é para agir. É a semana do brilho recolhido, do ritual de silêncio. As palavras, agora, precisam ficar em repouso — como serpentes que só atacam depois de três dias completamente imóveis. É assim o ritmo secreto da Confraria: uma semana para observar, outra para agir. E estamos no ciclo do recuo, da espera paciente, da contração muscular que antecede o salto. Na próxima, sim. Na próxima semana ela talvez entre na sala já sabendo. Talvez diga algo aparentemente banal que, para os iniciados, será um selo de reconhecimento. Talvez vista a mesma cor que apareceu no meu sonho da noite passada — aquele azul que não existe no espectro visível normal. Talvez cruze as pernas no exato instante em que o projetor falhar, sincronicidade que não pode ser explicada pela física convencional. São nesses pequenos desvios da normalidade que mora o brilho antigo das coisas que existem além do tempo. Por enquanto, deixo que os signos se acomodem como sedimentos no fundo de um lago. Releio minhas anotações feitas nas margens de um livro de semiótica, traços quase invisíveis que modificam o texto original como um vírus modifica o DNA. Reescrevo sonhos em códigos que só farão sentido quando lidos de trás para frente. Escondo símbolos na lousa que permanecerão ali mesmo depois que o apagador passar, visíveis apenas sob certas condições de luz e atenção. Ela vai ver. Ou não. Talvez só na próxima encarnação. Talvez já tenha visto e esteja apenas esperando que eu também me reconheça como parte dessa dança antiga. Por isso, continuo o teatro diário. Porque o teatro é o único lugar onde a mentira é não apenas permitida, mas necessária, e por isso mesmo, é onde mais perto se chega da verdade última das coisas. A representação que revela o que a realidade cotidiana esconde. A semana é de vigília silenciosa. E o brilho antigo, embora temporariamente recolhido, continua lá — fervendo em silêncio como água no ponto exato antes da ebulição, esperando o gesto certo, a palavra sussurrada no corredor específico, o espelho colocado no ângulo preciso que revela o que está além. Que venha a próxima semana com seus sinais e confirmações. Eu estarei pronto. As serpentes terão descansado o suficiente. As palavras terão acumulado seu poder no silêncio. E o chamado da vidência encontrará novos caminhos para se manifestar, mesmo que todo o restante do mundo permaneça cego às suas evidências que pulsam em cada esquina, em cada intervalo entre as palavras ditas, em cada falha do projetor, em cada goma de menta esquecida no bolso de um casaco.

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