O Homem, a Peste e Sua Sombra (Henri Vaz)
Não sei há quanto tempo estamos presos, ou quem já morreu. Aqueles que já desertaram — e eu penso mesmo nos que apenas seguiram em frente, como se não tivessem deixado partes suas pelo caminho — ainda assim, continuam aqui. Não nos nomes, nem nas imagens. Mas nos fragmentos da realidade deles que se desmancham dentro de mim como aquela gelatina com creme e vários sabores... mosaico, acho que chamava. Sempre me pareceu algo entre sobremesa e fragmentação. Nunca consegui comer inteiro. Às vezes me pergunto se tudo o que guardei deles — dos que se foram, dos que desistiram de mim, dos que eu desisti sem perceber — se tudo isso ainda me pertence. Ou se fui apenas o recipiente, o copo de vidro onde despejaram emoções sem querer segurar. Como se minha função fosse armazenar aquilo que os outros não sabiam nomear. A peste, quando começou a despertar, não parecia um monstro. Parecia um eco. Como se algo que alguém disse muitos anos atrás ainda estivesse reverberando em mim, esperando o dia em que eu estivesse quieto o suficiente para escutar. E agora, enquanto escrevo, percebo que talvez eu tenha sido o último a desertar. A diferença é que voltei. Ou nunca fui embora. Este texto é o que ficou. Ou o que está voltando. Não posso mais distinguir. Sentei no bar às 19h15. Camel Double. Smirnoff Ice. Bebi direto da garrafa como quem não quer ritual, só efeito. Na mesa ao lado, alguém sorriu. Chegavam outros para uma aula de forró. Os passos leves, o ensaio de alegria, o flerte com a noite — tudo parecia coreografado para uma cena que não me incluía. E mesmo assim, eu estava lá. Não como parte do quadro, mas como sombra no canto da moldura. O bar era conhecido, o gosto da bebida familiar, o cigarro queimava no tempo exato. Nada fora do previsto. E ainda assim, hoje havia algo se movendo. Ou melhor, algo deixando de estar imóvel. Durante anos, eu acreditei que havia vencido a peste. Acreditei que, com ordem, livros e silêncio, ela teria desaparecido. Mas ela não foi embora. Ela se congelou. E agora, neste exato instante, ela escorre lentamente como água que se infiltra entre as frestas da alma. O psiquiatra, conservador de fala calma, me disse que não é necessário controlar a situação. E essa frase simples, quase sem entonação, foi o que rachou a crosta. A peste não se manifesta como doença explícita. Ela é discreta. Vive nos gestos interrompidos, nos afetos engolidos, na negação elegante da própria natureza. A minha peste — feita de angústia, desejos abafados, impulsos reprimidos e medos herdados — viveu bem vestida por muito tempo. Hoje ela tirou o paletó. Enquanto as pessoas dançavam, eu ouvia meu corpo. Não os passos dos outros, mas os meus ossos lembrando de quem fui. Daquele menino que desistiu de fumar um cigarro de cravo porque achou que ainda dava tempo de ser perfeito. Que guardou a raiva no fundo da garganta pra não desapontar ninguém. Que confundiu obediência com respeito. Que aprendeu cedo a cortar sentimentos como quem poda galhos antes que atrapalhem a paisagem. A peste não é feia. É legítima. E por isso amedronta tanto. Ela é o que não se quer ver, mas que nos define por inteiro. Hoje, sob o som do forró e o cheiro doce do Camel, comecei a vê-la. Não com culpa, mas com curiosidade. E me perguntei: quem fui todos esses anos em que me comportei bem demais? A resposta talvez não caiba aqui. Talvez esteja na parte dois. Quando o gelo terminar de derreter. Quando a peste puder sair do corpo e caminhar ao meu lado, sem correntes. Era como se a peste saísse de um estado de hibernação. Não veio como febre, nem como grito. Veio como suor frio escorrendo da nuca, como tremor leve nos dedos ao tocar o teclado. E ao mesmo tempo em que os corpos ao meu redor giravam, sorrindo em pares sob a música que se repetia em variações previsíveis, eu era tomado por algo que não dançava. A peste não dança — ela exala. Pelos poros, pelas narinas, pela palavra que se recusa a ser domada. Era sutil, mas eu sabia. Não era o álcool. Não era o cigarro. Era o tempo acumulado dentro de mim, décadas mantidas sob controle, agora encontrando uma pequena rachadura por onde escorrer. Cada letra que eu digitava no notebook era uma espécie de impressão digital do que esteve preso. Não escrevia mais como quem reflete: escrevia como quem sangra. Como quem deixa a peste se imprimir, frase por frase, com a densidade de um segredo que se cansa de esperar. As luzes do bar pareciam mais baixas do que realmente eram. Talvez fosse a minha própria visão turvada por dentro. O cenário, de tão alegre, soava quase onírico. Uma felicidade de novela, quase cenográfica. E por isso mesmo, perfeita para contrastar com o que eu estava sentindo: uma espécie de parto ao contrário, onde o que saía de mim não era novo, mas antigo. Ancestral. De quando minha voz ainda se confundia com a dos outros, de quando meu corpo ainda pedia permissão para existir. Talvez o que estivesse acontecendo ali não fosse uma libertação, mas uma aparição. A peste, antes trancada e congelada, agora caminhava lentamente sobre a minha pele. E diferente de todas as vezes em que tentei sufocá-la, dessa vez eu a deixei ficar. Não como sintoma, mas como personagem. E então pensei: e se fosse ela quem sempre escreveu? E se tudo o que eu tentei controlar, minimizar, equilibrar — fossem apenas tentativas de impedir que a parte mais viva em mim falasse? Talvez o terapeuta tivesse razão. Talvez o controle seja o verdadeiro cárcere. Talvez a cura seja deixar a peste falar, escrever, beber, fumar, dançar mesmo que torta — e saber que ela é, no fundo, o que há de mais autêntico. Eu acredito na minha ressurreição — mas não como quem espera o céu abrir em claridade. Acredito naquele que ficou esquecido. No menino que congelou antes da hora, como quem entra num cômodo escuro e perde a chave por dentro. Ele ainda estava lá. Não morto, não vivo. Apenas contido. Agora, à medida que a peste vai exalando pelos poros, como suor de febre antiga, percebo que ela carregava não apenas os excessos que quis esconder — vícios, medos, descontrole — mas também aquilo que era meu, mas eu me proibi. As frases que interrompi, os gestos que contive, o prazer que embotei pra caber em casas alheias. Naquela noite no bar, com o Camel Double queimando entre os dedos e a garrafa suada de Smirnoff Ice encostada no pulso, senti uma mudança sutil, quase imperceptível. Como se a alma deslocasse um milímetro do osso. Não era um momento cinematográfico. Era quase ridículo. Um grupo se reunia pra dançar forró ao lado, e o som dos corpos batendo contra o chão de madeira me lembrava que o mundo seguia girando. Mas, dentro de mim, algo começava a derreter. Era como se aquele que havia sido congelado estivesse retornando ao estado líquido. E a peste se misturava à escrita. Não como doença, mas como matéria-prima. Ela infiltrava nas entrelinhas, nos espaços em branco, na escolha de cada palavra. Eu queria que o texto cheirasse a nicotina e melancolia, como os corredores da infância. Queria que a vergonha de ter sentido demais ficasse visível, como um sublinhado torto. E enquanto todos dançavam, eu escrevia — como quem abre o peito e coloca um espelho dentro. Sem saber exatamente o que buscava, mas sabendo que, dessa vez, não ia me interromper. E de repente havia aquela brisa familiar carregando a melodia para longe, para onde ela me esqueceu. Não sei se era saudade dela ou da versão de mim que existia quando ela ainda me olhava com alguma ternura. Talvez fosse só o vento mudando de lado. Mas naquela dobra do tempo — entre o cigarro aceso e a dança dos outros — tive certeza de que era ali que eu havia sido deixado. Não abandonado, nem traído. Só esquecido. Como um objeto que perdeu sua utilidade, um casaco esquecido no verão. A música do forró ficou mais baixa, ou talvez eu tenha mergulhado mais fundo em mim. Havia aquele gosto de gelo velho na boca, mistura de álcool com memória. O som dos risos à minha volta parecia atravessar uma parede de vidro, e eu seguia escrevendo como quem fura esse vidro com uma colher. Devagar, teimoso, imperfeito. A peste continuava escorrendo. Agora não como febre, mas como sombra. Uma sombra que me acompanhava desde antes do primeiro amor. Desde as noites em que me escondia no quarto, sentindo demais e dizendo de menos. A peste era isso também: a parte de mim que nunca quis ser perdoada por sentir tudo com tanta força. E era ali, naquela brisa, que ela — a tal melodia — desaparecia outra vez. Ela se ia como sempre se foi: sem fazer barulho. Me deixava com a impressão de que nunca esteve ali. E mesmo assim, eu a seguia com os olhos, como se fosse possível aprender com as coisas que partem. Talvez seja isso a escrita: uma tentativa de traduzir as ausências em alguma presença bruta, mesmo que apenas por um instante. Mas aquela noite ainda não tinha terminado. E o corpo que escrevia já não era exatamente o mesmo que sentava ali às 19h15. A peste estava acordada. E eu, finalmente, começava a deixar que ela falasse por mim. Que isso tudo sirva como um espelho embaçado para aqueles que ainda estão se moldando no vapor da juventude. Que leiam nas entrelinhas — não uma história sobre vício ou cura, mas sobre presença. Sobre não deixar que o tempo congele aquilo que ainda pode ser vivido com furor. Jovens, não tenham medo de arder. Não deixem que lhes vendam o silêncio como sinônimo de maturidade. Falem alto, dancem mal, fumem só se for por poesia — e ainda assim, queimar com estilo, não por desespero. Se for para se perder, que seja como uma letra do Roxy Music: com glamour trágico, ternura exagerada e os olhos ainda brilhando. Há um mundo dentro de vocês que só será acessado quando pararem de tentar controlá-lo. Há uma peste em cada um, esperando o momento de ser acolhida — não para destruí-los, mas para que enfim parem de lutar contra o que os torna humanos. Sejam sentimentais demais. Sejam estranhos. Sejam reais. E quando a fumaça do último Camel Double subir e se despedir dos meus pensamentos, que ela leve consigo a última parte congelada de mim. E que o que restar seja um corpo em brasa, pronto pra escrever, pra amar, pra errar com beleza. Ardam.
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