De medusa à deusa (Introdução)
Era perto do Natal, o que aumentava o fervor dos devotos. Andorinhas agitavam-se sob o céu de São Paulo, os raios de Sol em um esforço frustrado na tentativa de rasgar as nuvens. A manhã nasceu tão nebulosa quanto aquela em que a penitenciária a cercara com seus muros opressivos. Urubus voavam em círculos contra o céu cinza quando Adriana levantou os olhos para o alto, esboçando um sorriso torto. O ar pesado, mas livre do cheiro de cigarro barato. Com ela, carregava uma sacola plástica verde com alguns pertences: um batom, esmaltes, uma agenda e outros pequenos itens. Como se tentasse manter a distância entre ambos, trajando uma regata e uma calça moletom desbotadas, suas botinas marcavam um ritmo solene, à frente do guarda, no chão de pedra.
Demonizada pela mídia que a retratara como uma besta fera em razão da morte de Sara Oliveira, ela seguia seu percurso contendo qualquer reação à pequena multidão na entrada do recinto. As senhorinhas de rosto inchado e expressão emocionada encaravam a expressão impassível de Adriana. A ex-repórter seguia seu percurso quase inalterada, não fosse pelas covas abaixo dos olhos e as marcas de expressão na testa. Um grupo de apoiadores formava uma barreira entre ela e os jornalistas, segurando cartazes: “Adriana é inocente”, “Adriana Monteiro, rainha da TV”. Os aplausos abafavam os cliques dos repórteres.
Quando ela cruzou o portão, um jornalista furou a corrente de seguidores de Adriana, quase tropeçando. O grupo ameaçou partir para cima dele, mas Adriana estendeu as palmas das mãos diante de si.
— Sem alarde, eu estou segura.
O jornalista se recompôs.
— Você concorda que talvez estivesse mais segura do lado de dentro? — ele disse em tom de deboche.
— Todos me adoram! Você não vê?
— Eu não posso ser injusto com você.
— 45% dos entrevistados duvidam que eu seja a autora do crime.
— Sabe o que isso significa? Sabe? Crime he-di-on-do!
— Quanta panaquice! De hediondo na minha vida basta a tua cara de buldogue velho.
— Madame, eu não faço a menor ideia do que seja um canil. Você sabe?
— Animal insistente.
Adriana movimentou o braço direito em um vai-e-vem atrapalhado fazendo com que a sacola verde girasse, vincando seu pulso. “Se esse bastardo soubesse o tamanho do inferno”, ela pensou.
— Uma nova investigação aponta que você e Rebeca Leal, a vítima número dois, eram muito próximas.
— Há várias falhas processuais nesta investigação.
— Quem matou Sara Oliveira? E Rebeca Leal?
Adriana deu uma bofetada que deixou quatro dedos marcados na bochecha do jornalista. O grupo de apoiadores começou a esbravejar frases aleatórias como “A perícia implantou provas no sistema”, “Rebeca criminosa”, até que todos gritavam “Corrupção na polícia!”. Os guardas foram em direção aos manifestantes, armados com porretes, Adriana ergueu as mãos e berrou:
— Silêncio! Silêncio! Eu tenho algo a dizer.
— Você acha justo com as famílias das vítimas?
Câmeras clicavam, um burburinho se instalava. A multidão ameaçou repetir o coro. Adriana desviou o olhar dos manifestantes, tentando esboçar uma fala, e fechou os olhos com força.
— Silêncio! Isso pode doer para as famílias…
— Você tem filhos? — o jornalista perguntou, com um sorriso.
Adriana ergueu a cabeça e respirou pesadamente.
— Rebeca Leal está viva… e não é inocente — Adriana disse em voz alta, com rancor na face.
O grupo começou a xingar “Rebeca criminosa!”, e os guardas tiveram que intervir para que os jornalistas não fossem agredidos.
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