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O Homem, a Peste e Sua Sombra (Henri Vaz)

Não sei há quanto tempo estamos presos, ou quem já morreu. Aqueles que já desertaram — e eu penso mesmo nos que apenas seguiram em frente, como se não tivessem deixado partes suas pelo caminho — ainda assim, continuam aqui. Não nos nomes, nem nas imagens. Mas nos fragmentos da realidade deles que se desmancham dentro de mim como aquela gelatina com creme e vários sabores... mosaico, acho que chamava. Sempre me pareceu algo entre sobremesa e fragmentação. Nunca consegui comer inteiro. Às vezes me pergunto se tudo o que guardei deles — dos que se foram, dos que desistiram de mim, dos que eu desisti sem perceber — se tudo isso ainda me pertence. Ou se fui apenas o recipiente, o copo de vidro onde despejaram emoções sem querer segurar. Como se minha função fosse armazenar aquilo que os outros não sabiam nomear. A peste, quando começou a despertar, não parecia um monstro. Parecia um eco. Como se algo que alguém disse muitos anos atrás ainda estivesse reverberando em mim, esperando o dia em ...

O Chamado da Vidência (Heinrich Falke)

Tudo começou com um cigarro. Um cigarro aceso num ponto exato da madrugada em que o silêncio da kitchenette vibrava junto com os tubos do encanamento, como se toda a cidade respirasse sob a pia, um organismo vivo e inconsciente. Sentei-me no parapeito da janela, isqueiro numa mão, caderno na outra. A brasa vermelha iluminava o rosto da minha própria ausência, aquela sensação de não estar completamente dentro do corpo. Ali, sob o fraco brilho da rua, senti novamente: o chamado. O mesmo chamado que ecoava nos livros que ela me empurrava sem dizer explicitamente que eram para mim. O mesmo que escorria por entre suas frases sobre Platão, que ela interpretava como se tivesse sido ela própria a inventar a caverna e suas sombras. Percebi então que as palavras já não me pertenciam mais. Nem o tempo. Eu havia cruzado uma fronteira secreta, uma onde toda a cronologia se dissolvia como açúcar em água fervente. A espera por ela, o atraso do ônibus, a goma de menta esquecida no bolso – tudo passou ...

De medusa à deusa (Introdução)

Era perto do Natal, o que aumentava o fervor dos devotos. Andorinhas agitavam-se sob o céu de São Paulo, os raios de Sol em um esforço frustrado na tentativa de rasgar as nuvens. A manhã nasceu tão nebulosa quanto aquela em que a penitenciária a cercara com seus muros opressivos. Urubus voavam em círculos contra o céu cinza quando Adriana levantou os olhos para o alto, esboçando um sorriso torto. O ar pesado, mas livre do cheiro de cigarro barato. Com ela, carregava uma sacola plástica verde com alguns pertences: um batom, esmaltes, uma agenda e outros pequenos itens. Como se tentasse manter a distância entre ambos, trajando uma regata e uma calça moletom desbotadas, suas botinas marcavam um ritmo solene,  à frente do guarda,  no chão de pedra. Demonizada pela mídia que a retratara como uma besta fera em razão da morte de Sara Oliveira, ela seguia seu percurso contendo qualquer reação à pequena multidão na entrada do recinto. As senhorinhas de rosto inchado e expressão emocion...