O Homem, a Peste e Sua Sombra (Henri Vaz)
Não sei há quanto tempo estamos presos, ou quem já morreu. Aqueles que já desertaram — e eu penso mesmo nos que apenas seguiram em frente, como se não tivessem deixado partes suas pelo caminho — ainda assim, continuam aqui. Não nos nomes, nem nas imagens. Mas nos fragmentos da realidade deles que se desmancham dentro de mim como aquela gelatina com creme e vários sabores... mosaico, acho que chamava. Sempre me pareceu algo entre sobremesa e fragmentação. Nunca consegui comer inteiro. Às vezes me pergunto se tudo o que guardei deles — dos que se foram, dos que desistiram de mim, dos que eu desisti sem perceber — se tudo isso ainda me pertence. Ou se fui apenas o recipiente, o copo de vidro onde despejaram emoções sem querer segurar. Como se minha função fosse armazenar aquilo que os outros não sabiam nomear. A peste, quando começou a despertar, não parecia um monstro. Parecia um eco. Como se algo que alguém disse muitos anos atrás ainda estivesse reverberando em mim, esperando o dia em ...